A síndrome

Síndrome de Parry-Romberg: compreender uma doença rara.

O que é, o que faz e o que se sabe hoje. Em linguagem que se percebe.

Esta página é informação, não é consulta médica. Se te reconheces no que aqui está escrito, fala com um médico.

O essencial sobre a Síndrome de Parry-Romberg e o que sabemos atualmente.

O que é a Síndrome de Parry-Romberg?
A Síndrome de Parry-Romberg (SPR), também conhecida como atrofia hemifacial progressiva, é uma doença rara adquirida caracterizada pela perda progressiva de tecido, geralmente num dos lados da face.
As alterações podem começar na pele e no tecido subcutâneo (gordura e outros tecidos localizados por baixo da pele). Em algumas pessoas, a doença pode atingir estruturas mais profundas, incluindo os músculos, cartilagem e ossos da face.
Habitualmente, apenas um lado da face é afetado, embora tenham sido descritos casos raros em que existem alterações em ambos os lados.
A SPR não deve ser considerada apenas uma alteração estética. Dependendo da pessoa e da extensão da doença, podem também existir manifestações dentárias, maxilofaciais, oftalmológicas (relacionadas com os olhos) e neurológicas (relacionadas com o cérebro e sistema nervoso).
A apresentação e a gravidade variam consideravelmente de pessoa para pessoa.
Não existem duas histórias de Parry-Romberg exatamente iguais.

Quão rara é?
A resposta mais correta é: Não sabemos exatamente.
A verdadeira prevalência (número de pessoas que vivem com a doença) da Síndrome de Parry-Romberg não é conhecida. Algumas fontes médicas referem que poderá afetar aproximadamente 1 pessoa em cada 250.000, enquanto outras apresentam estimativas que podem chegar a cerca de 1 em 1.000.000.
Por esse motivo, não é correto afirmar simplesmente que “a SPR afeta 1 em cada 250.000 pessoas” como se fosse um número confirmado.
Prevalência estimada: aproximadamente entre 1 em 250.000 e 1 em 1.000.000 de pessoas. A verdadeira prevalência permanece desconhecida.
Estabelecer um número exato é difícil devido à extrema raridade da doença, à possibilidade de casos não diagnosticados ou incorretamente diagnosticados e à sobreposição de algumas características com outras doenças.

Quem descobriu a Síndrome de Parry-Romberg?
O conhecimento médico desta doença começou há aproximadamente 200 anos.
1825 — Caleb Hillier Parry:
O médico inglês Caleb Hillier Parry publicou uma das primeiras descrições médicas conhecidas da doença em 1825.

1846 — Moritz Heinrich Romberg:
Em 1846, o neurologista alemão Moritz Heinrich Romberg publicou outra descrição da doença.
Os dois nomes acabariam por ficar associados: Parry + Romberg = Síndrome de Parry-Romberg.

1871 — Atrofia hemifacial progressiva
Posteriormente, em 1871, o neurologista alemão Albert Eulenburg utilizou a designação “atrofia hemifacial progressiva”.

O termo descreve literalmente uma das principais características da doença:
atrofia = perda ou diminuição de tecido;
hemifacial = afetando metade da face;
progressiva = desenvolvendo-se gradualmente ao longo do tempo.

Quando começa a Síndrome de Parry-Romberg?
A SPR começa mais frequentemente durante a infância ou adolescência, embora também existam casos com início na idade adulta.
A maioria dos casos descritos começa durante as primeiras duas décadas de vida.
A idade em que a doença começa pode ser particularmente importante.
Quando a SPR surge numa criança cuja face e estrutura óssea ainda estão em desenvolvimento, a doença pode interferir com o crescimento normal dos ossos da face, maxilar e mandíbula. Consequentemente, o lado afetado pode não desenvolver-se ao mesmo ritmo que o lado não afetado.

O que isto não é:
A Síndrome de Parry-Romberg não é contagiosa, não pode ser transmitida de uma pessoa para outra e, com o conhecimento científico atual, não é considerada uma doença hereditária clássica transmitida diretamente de pais para filhos. Também não é consequência de algo que a pessoa tenha feito ou deixado de fazer.
Não é uma paralisia facial. Embora possam existir alterações musculares, a SPR caracteriza-se principalmente pela perda progressiva de tecidos de um dos lados da face e pode atingir a pele, o tecido subcutâneo (gordura e outros tecidos localizados por baixo da pele), os músculos, a cartilagem, os ossos e outras estruturas.
E, acima de tudo, não é apenas uma questão estética. Para além das possíveis manifestações dentárias, oftalmológicas e neurológicas, viver com uma diferença facial visível pode ter um impacto significativo na autoimagem, autoestima, confiança, relações sociais e qualidade de vida. Esse impacto pode ser particularmente importante durante a infância e adolescência, fases em que a identidade, a imagem corporal e as relações sociais estão ainda em desenvolvimento.

Reconheces-te nisto?
Se reconheces algumas destas alterações em ti ou em alguém próximo de ti, ou se notas uma mudança progressiva e inexplicada num dos lados da face, fala com um profissional de saúde. Dependendo dos sintomas e das estruturas afetadas, poderá ser necessária avaliação por dermatologia, reumatologia, neurologia, oftalmologia, medicina dentária/estomatologia ou cirurgia maxilofacial.
Se tiveres fotografias antigas, leva-as contigo. Comparar fotografias tiradas ao longo de vários anos pode fornecer informação muito útil sobre quando as alterações começaram, como evoluíram e se existiu progressão ao longo do tempo. As fotografias podem ser uma ferramenta importante para documentar essa evolução, embora, por si só, não estabeleçam o diagnóstico.

E, se te apetecer, escreve-me. Há poucas pessoas a viver com Síndrome de Parry-Romberg e ainda menos que se conheçam umas às outras. Uma das razões pelas quais criei More Than My Face foi precisamente para nos podermos encontrar, partilhar experiências e perceber que, apesar de vivermos com uma doença rara, não temos de percorrer este caminho completamente sozinhos.

Para profissionais de saúde

A Síndrome - Para Profissionais

Resumo clínico da síndrome de Parry-Romberg, dirigido a profissionais de saúde, com base na literatura científica disponível.

Epidemiologia:

A síndrome de Parry-Romberg (SPR), também conhecida como hemiatrofia facial progressiva, é uma doença rara cuja incidência e prevalência reais permanecem desconhecidas.

Algumas publicações apresentam estimativas de prevalência entre 1 em 250 000 e 1 em 1 000 000 de pessoas, mas estes valores devem ser interpretados com prudência, devido à ausência de estudos epidemiológicos robustos e à possibilidade de subdiagnóstico.

A doença parece afetar mais frequentemente o sexo feminino e manifesta-se habitualmente durante a infância ou adolescência, embora também existam casos de início na idade adulta.

A apresentação é predominantemente unilateral, podendo afetar qualquer um dos lados da face. O envolvimento bilateral é menos frequente.

Fisiopatologia:

A etiologia e os mecanismos fisiopatológicos da síndrome de Parry-Romberg permanecem incompletamente esclarecidos.

Foram propostas hipóteses autoimunes, inflamatórias, vasculares e neurogénicas. A associação clínica e histopatológica com a esclerodermia linear en coup de sabre sugere a possibilidade de mecanismos fisiopatológicos partilhados.

A doença caracteriza-se por atrofia progressiva dos tecidos faciais, podendo envolver pele, tecido adiposo subcutâneo, músculo, cartilagem e estruturas ósseas.

Em determinados doentes, podem coexistir manifestações neurológicas, oftalmológicas e alterações dentárias ou maxilofaciais.

Não existe atualmente um mecanismo fisiopatológico único e definitivamente comprovado que explique todas as manifestações da doença.

Avaliação clínica e complementar:

O diagnóstico é predominantemente clínico, baseado na história de evolução, no padrão de atrofia facial e no exame objetivo.

A avaliação deve considerar:

  • Avaliação dermatológica e craniofacial: extensão da atrofia, alterações da pigmentação, envolvimento dos tecidos moles e estruturas ósseas.
  • Avaliação neurológica: cefaleias, enxaquecas, crises epiléticas, alterações sensitivas, dor neuropática, défices neurológicos e outros sintomas relevantes.
  • Avaliação oftalmológica: enoftalmo, alterações palpebrais, inflamação ocular e possíveis alterações da função visual.
  • Avaliação dentária e maxilofacial: alterações do crescimento mandibular e maxilar, assimetria dentoalveolar, maloclusão e outras consequências funcionais.

A ressonância magnética cerebral pode identificar alterações da substância branca, atrofia cerebral, alterações inflamatórias ou outras anomalias, particularmente em doentes com manifestações neurológicas.

A necessidade de neuroimagem e de outros exames complementares deve ser determinada de acordo com a apresentação clínica e a avaliação especializada.

Os exames laboratoriais, incluindo marcadores inflamatórios e autoanticorpos, podem ser considerados em contextos selecionados, mas não existem biomarcadores específicos que confirmem o diagnóstico ou determinem isoladamente a atividade da síndrome.

Atividade e estabilização da doença:

A evolução clínica é variável.

Em muitos doentes, a atrofia progride durante vários anos antes de estabilizar. Noutros, a progressão pode ser mais prolongada ou ocorrer reativação após um período de estabilidade.

A atividade da doença deve ser avaliada através da evolução clínica e, quando indicado, da comparação de fotografias padronizadas, imagens tridimensionais e exames complementares.

O aparecimento de novas áreas de atrofia ou o agravamento de alterações existentes pode sugerir progressão.

A ausência de progressão durante um período prolongado é sugestiva de estabilização, mas não existe um critério temporal universalmente validado que permita confirmar definitivamente a inatividade da doença.

Tratamento da doença ativa:

Não existe atualmente uma cura nem um protocolo terapêutico universalmente estabelecido especificamente para a síndrome de Parry-Romberg.

Em determinados casos de doença ativa ou progressiva, especialmente quando existe associação com esclerodermia linear ou manifestações inflamatórias, podem ser considerados tratamentos imunomoduladores ou imunossupressores.

O metotrexato, frequentemente associado a corticosteroides sistémicos, encontra-se entre os tratamentos descritos na literatura.

Outros medicamentos, como o micofenolato de mofetil e determinados agentes biológicos, têm sido utilizados em situações selecionadas ou refratárias.

Contudo, a evidência disponível é limitada, sendo frequentemente baseada em séries de casos, estudos observacionais e extrapolação de estratégias terapêuticas utilizadas na esclerodermia localizada.

A decisão terapêutica deve ser individualizada, considerando a atividade da doença, as manifestações associadas, os riscos do tratamento e a avaliação por equipas especializadas.

Reconstrução e reabilitação craniofacial:

A reconstrução craniofacial pode desempenhar um papel importante na recuperação da simetria, na correção de alterações estruturais e na melhoria da função e da qualidade de vida.

As opções incluem enxertos de gordura autóloga, transferência de tecidos vascularizados, reconstrução óssea e procedimentos ortognáticos ou maxilofaciais.

A seleção da técnica depende da extensão da atrofia, das estruturas afetadas, da idade do doente, dos procedimentos anteriores e da estabilidade da doença.

Tradicionalmente, recomenda-se que a reconstrução definitiva seja considerada após estabilização da progressão atrófica, embora o momento ideal de intervenção deva ser individualizado.

A reabsorção dos enxertos de gordura, a necessidade de procedimentos adicionais e a variabilidade dos resultados devem ser consideradas no planeamento cirúrgico.

A reabilitação pode igualmente incluir tratamentos dentários, ortodônticos, oftalmológicos, funcionais e apoio psicológico, de acordo com as necessidades individuais.

Diagnóstico diferencial:

O diagnóstico diferencial depende da idade de apresentação, da distribuição das alterações e da presença de manifestações cutâneas, neurológicas ou craniofaciais.

Entre as principais condições a considerar encontram-se:

  • Esclerodermia linear en coup de sabre, que pode coexistir ou apresentar sobreposição clínica com a síndrome de Parry-Romberg.
  • Microssomia hemifacial e espectro óculo-aurículo-vertebral, incluindo a síndrome de Goldenhar.
  • Assimetrias craniofaciais congénitas.
  • Lipodistrofias localizadas e outras causas de perda de tecido adiposo facial.
  • Síndrome de Barraquer-Simons, quando o padrão de perda de tecido adiposo justificar essa hipótese.
  • Outras doenças inflamatórias, traumáticas ou adquiridas que provoquem atrofia facial.

A encefalite de Rasmussen pode ser relevante no diagnóstico diferencial de determinadas manifestações neurológicas, mas não constitui uma causa habitual de hemiatrofia facial progressiva.

Abordagem multidisciplinar:

A síndrome de Parry-Romberg deve ser reconhecida como uma doença com possíveis repercussões estruturais, funcionais, neurológicas, oftalmológicas e psicossociais, e não apenas como uma alteração da aparência facial.

Consoante as manifestações individuais, o acompanhamento pode envolver dermatologia, reumatologia, neurologia, oftalmologia, medicina dentária, cirurgia maxilofacial, cirurgia plástica e outras especialidades.

A identificação precoce de complicações, a avaliação da atividade da doença e a continuidade dos cuidados são fundamentais para uma abordagem centrada na pessoa.


Referências científicas:

  1. National Organization for Rare Disorders (NORD). Parry-Romberg Syndrome.
    Disponível em: https://rarediseases.org/rare-diseases/parry-romberg-syndrome/

  2. StatPearls — NCBI Bookshelf. Parry-Romberg Syndrome.
    Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK574506/

  3. European Journal of Rheumatology. Linear Scleroderma of the Head — Updates in Management of Parry Romberg Syndrome and En Coup de Sabre: A Rapid Scoping Review Across Subspecialties.
    Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35929860/

  4. DermNet. Parry-Romberg Syndrome.
    Disponível em: https://dermnetnz.org/topics/parry-romberg-syndrome

  5. Radiology Case Reports (2024). Parry-Romberg Syndrome: A Case Report and Literature Review.
    Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1930043324001444

Estas referências destinam-se a apoiar a informação apresentada nesta página. Recomenda-se a consulta das publicações originais e de fontes científicas atualizadas, uma vez que o conhecimento sobre a síndrome de Parry-Romberg continua em evolução.


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O conteúdo desta página tem uma finalidade exclusivamente informativa, educativa e de sensibilização para a síndrome de Parry-Romberg. Foi elaborado a partir de literatura científica, publicações médicas e outras fontes de informação disponíveis, procurando apresentar os conhecimentos existentes sobre esta doença rara de forma clara, rigorosa e acessível.

O More Than My Face é um projeto pessoal, criado por alguém que vive com a síndrome de Parry-Romberg desde a infância. Embora a autora seja enfermeira de profissão e tenha adquirido conhecimentos ao longo de décadas de experiência pessoal com esta condição, não é médica nem especialista em síndrome de Parry-Romberg ou noutras doenças raras.

A informação disponibilizada neste website não constitui aconselhamento médico, diagnóstico clínico, prescrição, recomendação terapêutica ou protocolo de tratamento, nem substitui, em circunstância alguma, uma avaliação médica individualizada. Qualquer pessoa que apresente sintomas, suspeite de ter esta doença, tenha dúvidas sobre o seu diagnóstico ou procure esclarecimentos sobre exames, medicamentos, tratamentos ou intervenções cirúrgicas deverá consultar um médico devidamente qualificado, preferencialmente com experiência em doenças raras ou nas manifestações clínicas em questão. Nenhuma decisão relativa à saúde, incluindo iniciar, alterar ou interromper tratamentos, deverá ser tomada exclusivamente com base nas informações apresentadas neste website.

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A síndrome de Parry-Romberg é uma doença rara e complexa, cuja investigação científica continua em evolução. A informação aqui apresentada poderá não refletir todos os conhecimentos ou desenvolvimentos médicos mais recentes.

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Fontes

Atualizado a 13 de setembro de 2026